Cati Gayá
Cati Gayá
@cati.gaya
Staff Plus
Escrita

Zelda Fitzgerald: a escritora plagiada e silenciada por seu marido Scott Fitzgerald

  • por Cati Gayá @cati.gaya

Descubra a história de Zelda Fitzgerald, a "musa" e escritora plagiada por seu famoso marido

Muitos a conhecem simplesmente como "a esposa do famoso romancista F. Scott Fitzgerald", mas Zelda Fitzgerald sempre foi muito mais do que isso. Considerada um ícone da década de 1920 e uma das figuras mais relevantes da chamada Jazz Age, foi uma das primeiras flappers.

Uma geração de mulheres que não usavam espartilho, usavam saias na altura do joelho (algo considerado ultrajante na época), cortavam os cachos de cabelo, ouviam jazz, bebiam em público e, por fim, demonstravam desprezo pelo que era então considerado "comportamento aceitável".

Mas, além disso, Zelda era uma artista. Dançarina, pintora e, acima de tudo, escritora. O que muitas pessoas não sabem, e talvez a história da literatura e da arte tenha se encarregado de esconder, é que parte da fama de F. Scott Fitzgerald como escritor é devida a ela: tanto por usá-la como musa... quanto por roubar ideias e escritos, de maneira pouco escrupulosa. Descubra sua história abaixo.

Fotografia de Zelda Sayre em Montgomery, Alabama (1919)
Fotografia de Zelda Sayre em Montgomery, Alabama (1919)

Uma rebelde desde pequena

No início do século XX, no sul dos Estados Unidos, esperava-se que as mulheres fossem submissas e dóceis. Zelda Sayre, nascida em Montgomery, Alabama, em 1900, era o oposto: ativa, rebelde e provocadora. Ela dançava, bebia, fumava e buscava ativamente desafiar as convenções da época.

Diz-se que ela até tomava banho com maiôs da cor de sua pele, para alimentar os rumores de que tomava banho nua em público. Um artigo sobre uma de suas apresentações de dança comentava que Zelda estava interessada apenas em "homens e em nadar".

Não é por isso estranho que um jovem Scott Fitzgerald, que mais tarde seria considerado um dos escritores mais brilhantes da América, tenha se apaixonado perdidamente por ela em 1918, quando foi enviado para o Alabama durante sua carreira militar. Ele tinha 22 anos na época. Ela, 18.

Fotografia de F. Scott Fitzgerald (1921)
Fotografia de F. Scott Fitzgerald (1921)

Um casal de cinema

Zelda e Scott combinaram desde o início: bonitos, inteligentes, artísticamente curiosos e com talento inato. Durante os primeiros anos de namoro, Scott tinha estava escrevendo o livro This Side of Paradise, que ele acabou reescrevendo para basear um de seus personagens em Zelda. À medida que o relacionamento progredia, também aumentava o papel de Zelda no que Scott escrevia: Zelda permitiu que ele lesse seu diário, do qual o escritor copiou trechos inteiros e os incorporou ao livro, sem reconhecer suas contribuições.

Quando This Side of Paradise foi publicado, o sucesso foi esmagador e catapultou o casal para a elite social do momento. Scott apelidou Zelda de "a primeira flapper da América" ​​e ela se tornou um ícone. Mais tarde, quando Zelda, delirando depois de dar à luz seu primeiro filho, disse "espero que ela seja linda e boba, uma linda boba", Scott colocou essa frase na boca da personagem Daisy de seu livro O Grande Gatsby.

Fotografia de F. Scott Fitzgerald e Zelda (1921)
Fotografia de F. Scott Fitzgerald e Zelda (1921)

Os primeiros anos de casamento foram marcados por excessos, festas e álcool. O nascimento da filha não os deteve e utilizaram criadas e babás para poderem continuar a manter aquele ritmo de vida insustentável.

Zelda e Scott Fitzgerald com sua filha Scottie [Cordon Press]
Zelda e Scott Fitzgerald com sua filha Scottie [Cordon Press]

De musa a escritora

As festas selvagens acabaram levando-os a uma etapa marcada por infidelidades, dificuldades financeiras e muitas brigas. Muitas delas, causadas ​​diretamente pelo ciúme que Scott sentia. Um dos primeiros gatilhos desse conflito ocorreu quando Scott se preparava para publicar The Beautiful and Damned e o The New York Tribune pediu a Zelda que escrevesse a resenha do livro no jornal. Em seu artigo mordaz, Zelda revelou pela primeira vez o que estava acontecendo desde que eles começaram o namoro:

“Parece-me que numa página reconheci um fragmento de um antigo diário meu, que desapareceu misteriosamente pouco depois do meu casamento, e também fragmentos de uma carta que, consideravelmente editada, me pareceu familiar. Na verdade, o Sr. Fitzgerald - acho que é assim que ele soletra seu nome - parece acreditar que o plágio começa em casa."
Fotografia de Zelda Fitzgerald publicada na Metropolitan Magazine, no seu artigo 'Eulogy of a Flapper' (1922)
Fotografia de Zelda Fitzgerald publicada na Metropolitan Magazine, no seu artigo 'Eulogy of a Flapper' (1922)

Embora o comentário fosse feito em tom de piada, o tema se tornou um dos motivos de suas muitas discussões. E quando Zelda começou a receber cada vez mais pedidos para escrever livros e artigos, Scott foi ficando cada vez mais ressentido. O fato de sua "musa" ser capaz de ter seus próprios sucessos com temas que ele queria usar em seus romances fez com que a relação entre eles se fosse deteriorando cada vez mais.

Quando o casal se mudou para Paris, as longas horas que Scott passava tentando escrever O Grande Gatsby levaram Zelda a conhecer e se apaixonar pelo piloto francês Edouard Jozan. Quando ela pediu o divórcio ao marido para que pudesse começar uma nova vida com o amante, Scott não apenas não o concedeu, mas a trancou em casa até que ela retirasse a petição. Logo depois, Zelda tentou o suicídio pela primeira vez.

Zelda Fitzgerald em sua pose de ‘flapper’ [A.G.Nauta Couture]
Zelda Fitzgerald em sua pose de ‘flapper’ [A.G.Nauta Couture]

O declínio da primeira flapper do mundo

As discussões e tensões pioraram cada vez mais, assim como a saúde mental de Zelda. Na década de 1920, o comportamento de Zelda tornou-se cada vez mais errático e o ressentimento para com omarido, nessa época devido ao alcoolismo, só piorou.

Zelda decidiu se dedicar à dança e, embora tenha conseguido avançar muito na carreira, o desprezo de Scott por sua tentativa de se tornar dançarina acabou sendo tão desanimador que ela rejeitou a oferta da prestigiosa escola da Companhia San Carlo Opera Ballet. em Nápoles. Suas festas, antes glamorosas, agora eram destrutivas e decadentes. Finalmente, em 1930, Zelda foi internada em um sanatório na França, onde foi diagnosticada com esquizofrenia.

Quando a avisaram que a saúde de seu pai estava piorando, o casal voltou para sua cidade natal, Montgomery, onde Scott a deixou sozinha para ir para Hollywood. Após a morte de seu pai, sua saúde mental piorou ainda mais, e ela começou a entrar e sair dos sanatórios com frequência.

Zelda Fitzgerald praticando ballet [CSU Archives / Everett Having]
Zelda Fitzgerald praticando ballet [CSU Archives / Everett Having]

Mas mesmo essas circunstâncias não esfriaram sua ânsia criativa. Em 1932, enquanto estava no hospital, ela escreveu um romance semi-autobiográfico completo, chamado Save Me the Waltz, e o enviou para a editora de Scott. Quando Scott leu, sua reação foi visceral e furiosa: ele mandou várias cartas repreendendo-a pelo que ela havia escrito.

Na verdade, sua reação se deveu ao fato de que ele planejava usar esse material para seu livro Tender is the Night, que não terminaria por mais dois anos. Para ter material suficiente para seu romance, Scott forçou Zelda a eliminar o que ele queria usar. A versão fortemente modificada foi publicada sem sucesso.

Ironicamente, seu próprio marido se juntou às críticas negativas, chamando Zelda de "uma escritora de terceira categoria" e seu trabalho de "um plágio", acusando-a do que ele vinha fazendo durante grande parte do casamento. Save Me the Waltz é o único trabalho que ela veria publicado em sua vida, e foi uma terrível decepção que a afundou ainda mais.

Capa de ‘Save me the Waltz’, de Zelda Fitzgerald (Handheld Press)
Capa de ‘Save me the Waltz’, de Zelda Fitzgerald (Handheld Press)

O legado de uma geração de mulheres

Anos após a morte de Scott, Zelda, readmitida em um sanatório, e apesar de sua experiência devastadora com Save me the Walz, voltou a escrever outro romance intitulado Caesar's Things.

No entanto, ela não foi capaz de terminá-lo, pois morreu em um incêndio no quarto onde havia sido trancada enquanto esperava sua terapia de eletrochoque.

Christina Ricci interpretando Zelda Fitzgerald na série ‘Z: the beginning of everything’ [AMAZON STUDIOS]
Christina Ricci interpretando Zelda Fitzgerald na série ‘Z: the beginning of everything’ [AMAZON STUDIOS]

No entanto, esse final triste também tem seu lado positivo. Embora seu marido Scott Fitzgerald continue a ser reconhecido como um dos escritores mais relevantes dos Estados Unidos, aos poucos a figura de Zelda foi sendo recuperada graças principalmente às biografias publicadas sobre ela.

A escritora Deborah Pike em sua biografia a considera uma importante contribuidora para a história da arte. Tanto o seu trabalho, como as dificuldades que teve que enfrentar, ajudam a evidenciar a perspectiva feminina na arte da época. Sua obra, publicada e não publicada, oferece uma reflexão sobre a modernidade, a doença mental e o plágio.

Por sua vez, Nancy Milford escreveu Zelda: A Biography, que se tornou um best-seller e marcou o ressurgimento da figura de Zelda: um ícone feminista, vítima de um marido controlador que não suportava compartilhar seu sucesso.

’Fifth Avenue’, pintado por Zelda Fitzgerald
’Fifth Avenue’, pintado por Zelda Fitzgerald

Graças a essas escritoras, que emprestaram suas palavras a outra que não conseguiu se expressar, o público em geral passou a conhecer Zelda Fitzgerald: não mais como "esposa de Scott Fitzgerald", mas como uma mulher inteligente, rebelde, com talento, força e identidade própria.

Versão em português de @sergiofelizardo.

Você também pode se interessar por:

- 3 artistas plásticas quase esquecidas que ajudaram a retratar a sociedade brasileira
- Mary Shelley: a adolescente que criou Frankenstein e a ficção científica moderna
- Hilma af Klint: a fascinante história por trás de uma das pioneiras da arte abstrata
- Retrato de personagens femininas com Procreate, um curso de Natália Dias
- Autorretrato fotográfico Fine Art, um curso de Danny Bittencourt

Ver cursos recomendados

Exercícios de escrita: da folha em branco à prática cotidiana. Curso de Escrita por Aniko Villalba

Exercícios de escrita: da folha em branco à prática cotidiana

Um curso de Aniko Villalba

Pratique a escrita criativa até transformá-la em hábito a partir de exercícios de documentação e criação de ideias

  • 40258
  • 98% (1.2K)
70% Desc.
Preço original $19.99USD
Comprar $5.99USD
Diário de poesia visual: narre com fotografia e versos. Curso de Fotografia, Vídeo, e Escrita por Lina Botero

Diário de poesia visual: narre com fotografia e versos

Um curso de Lina Botero

Aprenda a narrar combinando diversas linguagens, como a palavra, o vídeo e a fotografia para expressar suas emoções de maneira original.

  • 11896
  • 99% (219)
70% Desc.
Preço original $19.99USD
Comprar $5.99USD
Técnicas de storytelling para transmitir sua mensagem. Curso de Marketing, Negócios, e Escrita por Gabriel García de Oro

Técnicas de storytelling para transmitir sua mensagem

Um curso de Gabriel García de Oro

Descubra a ferramenta mais potente para comunicar sua marca, seu negócio ou seu trabalho de maneira efetiva através das emoções

  • 14947
  • 98% (637)
70% Desc.
Preço original $19.99USD
Comprar $5.99USD
4 comentários