Cartografia Íntima
de Nádia Regina Almeida Manzon @nadia_noticia
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Introdução
O projeto "Cartografia Íntima" foi concebido a partir da minha experiência pessoal de entrar na menopausa, uma fase tão natural quanto desconhecida por muitas mulheres. Além de lidar com aspectos hormonais e dezenas de sintomas físicos que impactam atividades regulares do cotidiano, como crises recorrentes de enxaqueca, ao ingressar na chamada meia idade me deparei com o imperativo de ter de me reinventar profissionalmente. Questões emocionais decorrentes da chamada Síndrome do Ninho Vazio, quando os filhos adolescentes se preparam para voar em suas próprias vidas, e o processo de envelhecimento exigiram adaptações, muita análise e uma reformulação do meu próprio eu. A colagem me pareceu a alegoria perfeita para expressar esse momento, juntando fragmentos de papeis cuidadosamente pintados e impressos a partir de experimentações que aprendi em cursos do Domestika como a formar um mapa subjetivo, muito pessoal, intuitivo e poético. Utilizei a cartografia, enquanto disciplina que envolve arte e ciência para produzir mapas e representar espaços geográficos, como uma forma de expressão dessa fase envolvida em dúvidas, tabus e preconceitos, mas também em renascimento, transformação e amor próprio. Observe que não usei tesoura para cortar os pedaços que representam países, mas minhas próprias mãos, como quem rasga partes de si para compor a identidade que emerge de toda essa vivência. A paleta de cores - do fundo azul que remete ao infinito enigma da vida ao vermelho que simboliza a feminilidade, permeados com a cor preta, tão atribuída à dualidade (luto, morte e mistério, ao mesmo tempo poder, elegância e sofisticação), é muito pessoal, relacionada à minha visão da menopausa e do papel da mulher madura numa sociedade que valoriza a juventude e exige padrões de beleza irreais.

Suprimentos
Todo o processo de criação do projeto "Cartografia Íntima" foi analógico. Comecei por resgatar papeis que havia pintado com aquarelas e acrílicos e impresso manualmente com rolos de espuma e borracha. Os papeis são de textura e gramaturas variadas: folhas de sulfite, papel manteiga, jornais antigos e até filtros de café, que por si representam o papel feminino no lar, a mulher como cuidadora e figura fundamental no contexto doméstico, o que está ligado ao fato de eu ter deixado de trabalhar formalmente para me dedicar à família durante uma década. Observo também que tanto o café quanto ao jornal remetem à minha identidade como jornalista, parte da minha trajetória profissional, mas que, sozinha, não pode traduzir quem sou. Utilizei ainda lápis de cor (Polychromos, da Faber Castell e Caran D´Ache) e canetas Uni Pin Fine para detalhes, bem como cola e tinta spray. Além dos mencionados papeis, utilizei papel vegetal para esboço do planisfério em imagem antiga pesquisada na Internet, para ter ideia e inspiração para compor meu próprio mapa imaginário.



"Cartografia Íntima"
Sou jornalista formada em 1993, quando fui mãe pela primeira vez (tenho três filhos de 32, 19 e 16 anos de idade). Após duas décadas atuando como repórter, editora e assessora de imprensa, decidi pedir demissão do emprego formal para me dedicar à família porque na época estávamos passando por uma situação de problemas de saúde que exigiam minha presença em casa, para preparar nossas refeições e cuidar das tarefas do cotidiano, entre muitas outras funções. Comecei, então, a escrever contos, publiquei alguns em coletâneas, escrevi um romance, pratiquei fotografia e conheci o site Domestika, quando comecei a fazer vários cursos relacionados às minhas áreas de interesse, em especial a ilustração. Aos 51 anos entrei na menopausa de uma forma bem difícil, povoada de dúvidas e inseguranças. Atualmente estou com 54 anos, longe do mercado de trabalho e as questões hormonais ainda são um grande desafio, com consequências físicas e emocionais bastante exigentes. Para entender melhor esse processo comecei a pesquisar e ler sobre o assunto, mas a necessidade de transcender a teoria me fez conceber o projeto de colagem "Cartografia Íntima", a partir de técnicas muito simples de estampagem como a monotipia e outras experimentações como os materiais que tinha em casa, inclusive reciclados, como jornais velhos e filtros de café. Acho que a arte tem me ajudado muito, não só como forma de expressão e satisfação como também de, posso dizer, uma espécie de terapia. Gostaria de agradecer a todos que generosamente compartilharam seus saberes que me permitiram chegar até aqui. Obrigada! A quem quer tentar a arte como terapia, aconselho a começar por técnicas muito simples, sem exigir muito de si nem muita pretensão, tentando a maior abertura possível para que, por meio da expressão artística, consiga desenvolver novos olhares para si mesmo, para o próximo e para a vida, olhares que certamente vão ajudar a lidar com situações desafiadoras em qualquer idade (e gênero), resultando em libertação, criatividade e paz.






1 comentariu
I feel this piece, deeply. It is quite moving, and beautiful. I empathize and recognize, the feelings and emotions that I recieve through the artwork. 🩷
@parhodes1 It's very good to know that the work moved you. I appreciate your comment and your attention; it's an encouragement to continue on this path. Obrigada!
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