Silêncio
Silêncio
de Felipe Madruga @felipe_s_madruga
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Introdução
Escrevi este conto durante o curso Técnicas de escrita criativa para contos, de Jane Corry. Veja a sinopse a seguir:
Em uma manhã chuvosa, o silêncio pesa como nunca antes. Nati se foi, sem gritos, sem palavras — apenas o som da porta se fechando e a lembrança do que foi quebrado entre eles. Enquanto as gotas de chuva martelam a janela, memórias de momentos felizes e feridas antigas se misturam ao vazio deixado por sua ausência. Até que um som familiar rompe o silêncio, trazendo a promessa de que talvez nem tudo esteja perdido.
Suprimentos
Utilizei o software Ulysses para escrever, e papel e caneta para anotações e planejamento.
Silêncio
Ela saiu de manhã cedinho. Saiu em silêncio. Simplesmente pegou suas coisas e saiu. Ela tem seus motivos. Não a culpo. Eu quebrei uma coisa, uma coisa importante, e ela se foi.
Se ela tivesse gritado ou arremessado algo em mim, isso seria ruim. Mas foi muito pior. Ela se foi em silêncio.
Quando a gente tá sozinho o silêncio é uma coisa terrível. Dá pra ouvir os pensamentos, todos ao mesmo tempo. A cabeça da gente fica voltando naquilo, naquele momento decisivo que não dá mais pra mudar.
Lá fora, as gotas de chuva batem na janela e o céu é cinza. Eu não gosto da chuva. Na chuva tem raios, e os raios trazem o som do trovão. É aquele silêncio antes, aquele momento em que tudo fica parado, e então o barulho explode, como se o mundo fosse rachar ao meio. Lembro de uma vez em que fiquei sozinho em casa e teve uma tempestade. Eu era criança. A luz apagou e toda vez que um raio brilhava no céu o som do trovão fazia tudo tremer. Desde então, toda vez que chove eu fico com um embrulho na barriga.
Ela sabia do meu medo de trovões. É constrangedor, eu sei, mas é bom quando alguém conhece os nossos medos. Quando chovia, ela colocava música alta e a gente dançava até cair de tanto rir. Mas hoje não tem música, nem dança, nem Nati. Só o barulho das gotas de chuva na janela e o silêncio, como aquele antes de um trovão explodir no céu.
A gente gostava mesmo era do verão, quando saímos pra caminhar perto da praia, com o céu azul e o vento na cara. Todo mundo olhava pra gente. Nós éramos felizes, éramos o tipo que todo mundo queria ser em um dia quente de verão. Um dia um cara mexeu com a Nati na praia. Eu vi no rosto dela que ela ficou com medo. Eu não sou de confusão, mas quando aquele cara assediou a Nati eu perdi a cabeça. Avancei contra ele até ele recuar. Se ela não tivesse me segurado, não sei o que teria acontecido. Depois que o susto passou, ela tinha um sorriso diferente. Sabia que podia contar comigo. Ela conhecia os meus medos e eu os dela e um cuidava do outro. Éramos uma boa equipe.
A Nati era forte. Vi ela passar por muitas dificuldades e permanecer firme. Mas algumas coisas machucam mais do que outras. Ela nunca teve apoio da família. Isso fez com que nutrisse sempre uma desconfiança sobre si mesma. Nada que ela fazia era bom o suficiente. Quando alguém fazia um elogio, ela achava que a pessoa só estava tentando ser legal. Algumas vezes, essa insegurança a fazia chorar. Assim como os raios, primeiro vinha o silêncio, e depois uma pequeno soluço irrompia acompanhado de lágrimas. Uma pequena tempestade em um rosto nublado pelo medo de não ser bom o suficiente. Quando isso acontecia eu sempre estava lá, ao lado dela, em silêncio também. Eu só a olhava, como quem dizia “Eu entendo. Eu estou aqui”.
Mas agora eu sou o motivo da tristeza. Eu sou a tromba d’água que rompe a represa dos olhos. Eu quebrei aquilo, e ela se foi. Se foi em silêncio. Eu me deito no sofá, sobre o cobertor amarelo que a Nati amava. O cheiro dela ainda está aqui, nas almofadas. É estranho como um cheiro pode causar dor. Uma dor feita de memórias boas que se estilhaçaram feito vidro, e agora arranham e cortam. Eu deixo a dor entrar em mim junto com o cheiro do perfume dela. Com a cabeça apoiada na almofada, fecho os olhos pra tentar dormir e esquecer aquela porta se fechando pela manhã.
Por trás das pálpebras percebo uma luz. Eu abro os olhos, mas tudo ainda está escuro no apartamento. É o silêncio que vem primeiro, aquele silêncio que a gente quase consegue tocar. Um segundo… Dois… Então, o som do trovão explode. Um estrondo tão alto que parece vir de dentro, como se as paredes e o teto tivessem rugido junto com o céu. Os vidros da janela vibram, ameaçam se soltar, e eu sinto o chão tremer sob o sofá. Meu coração dispara e minha barriga dá aquele nó familiar.
O trovão se dissolve no silêncio, mas o som ainda vibra dentro de mim, como se tivesse se impregnado nas paredes e no ar do apartamento. Eu fico deitado, imóvel, mas meus olhos permanecem abertos agora, fixos no teto que mal consigo enxergar. A chuva lá fora aumenta, e cada gota parece pesada demais, como se o céu estivesse despejando tudo de uma vez.
Eu penso no que fiz. Em como quebrei aquilo. Penso na porta se fechando, no silêncio dela, e em como isso é pior do que qualquer grito. Eu não sei viver sem ela. Não quero viver sem ela.
Então, vejo outra luz. Não é um raio desta vez. É uma luz morna, amarela, que escapa por debaixo da porta da entrada. Minha respiração para por um instante. Fico sentado, imóvel, meu corpo inteiro alerta. Será que ela esqueceu alguma coisa? Será que voltou pra pegar algo e vai embora de novo?
Ouço o som seguinte: não é o trovão, mas o tilintar suave de um molho de chaves sendo retirado da bolsa. Meu coração dispara. E se não for ela? E se for outra pessoa? A ideia me assusta e fico parado, sem saber o que fazer. Silêncio de novo…
Continuo com os olhos fixos na porta. O silêncio finalmente se quebra pelo clique da fechadura girando.
Ela tá ali. É a Nati.
Não consigo me segurar. Corro na direção dela, minhas patas deslizam no chão liso, e eu quase caio antes de chegar até ela. Meu rabo balança tanto que parece que vai me fazer voar. Ela sorri. Ela sempre sorri quando me vê assim, como se eu fosse o motivo mais simples e puro de felicidade no mundo.
Ela me abraça, rindo. Eu lambo o rosto dela até que ela afaste a cabeça. ‘Tá bom, tá bom!’ ela diz, e eu finalmente sei que tudo está bem de novo. O silêncio se foi e a Nati voltou.
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5 comentários
Amei...Parabéns Felipe...final surpreendente e muito terno
Adorei essa história. O final me surpreendeu. Ótimo final!!
@cristina_soares Obrigado, Cristina! Obrigado por compartilhar sua experiência com a história. Fico muito, muito feliz mesmo :)
Um abraço!
@ddbitsios obrigado por ler e comentar :) Fico feliz em saber que o final funcionou hahaha. Um abraço!
Genial! relato incrivel, ainda que pela metade já desconfiei que seria o cão, achei interessante a ideia de contar algo pelo ponto de vista de um animal. parabens, muito bem escrito, muito interessante e muito emotivo! parabens!
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