Elegia de Prata
van Sofia Vila Nova @sofiavilanovacapriotti
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Introdução
Um dos exercícios do meu curso com Emily Barr foi escrever sobre um talher recém-colocado numa nova gaveta. Escolhi uma faca de prata, antes nobre e útil, mas agora esquecida e relegada a uma gaveta escura, entre talheres baratos. Dentro de mim, fiz a ponte entre esse talher e um sem-abrigo nas ruas de Lisboa. Ambos tiveram um propósito, ambos foram valiosos em algum momento, mas foram abandonados, descartados e esquecidos pela sociedade.
A faca representa todos aqueles, invisíveis como os sem-abrigos, que foram deixados para trás, ignorados pela sociedade.

Suprimentos
Word e Pixabay.
Elegia de Prata
Fui feita para brilhar. Sou prata verdadeira — uma faca de sobremesa com 245 anos e riscos e manchas. Já servi reis, aristocratas, mesas iluminadas a candelabros. Agora estou enfiada numa gaveta miserável, entre talheres baratos e outros mais de plástico. Barulhentos. Vulgares. Fui polida à mão, com cuidado e respeito. Agora, serei queimada, sem cerimónia, numa máquina de lavar qualquer. Sem toque humano. Tenho de apodrecer devagar, entre o ruído, a gordura e a humilhação. Já ninguém dá valor. Afinal, sou só uma faca de sobremesa. Com traumas. Com ferrugem na alma. E uma solidão que corta mais que eu.
(100 palavras)

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