Arquitetura e espaços

Adeus ao arquiteto Ricardo Bofill, mestre do pós-modernismo espanhol

O arquiteto barcelonês, falecido aos 82 anos, deixa um legado de obras admiradas no mundo todo

O mundo da arquitetura se despede com tristeza do catalão Ricardo Bofill, um dos arquitetos mais importantes da Espanha, falecido na sexta-feira, 14 de janeiro, aos 82 anos.

Sua entrada em cena marcou uma ruptura com a arquitetura racionalista da primeira metade do século XX no país ibérico e sua linguagem, de estilo pop, rapidamente chamou a atenção pelo radicalismo.

Suas criações foram consideradas muito mais do que construções: foram uma proposta de formas de habitar. Neste texto, repassamos sua trajetória e estilo e destacamos suas melhores obras.

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Ricardo Bofill, arquiteto espanhol reconhecido por suas grandes obras

Seu espaço de trabalho: o mundo

Quando iniciou sua trajetória na arquitetura, Bofill mal havia deixado a adolescência. Desde o início, seu ímpeto e personalidade foram muito claros. “Gosto de inventar arquiteturas, linguagens, vocabulários e, ao mesmo tempo, me envolver em temas que olhem para o futuro. É isso que me motiva a continuar fazendo arquitetura todos os dias por 10 horas: o futuro”, disse ele em suas primeiras entrevistas.

Tal vontade tinha uma razão de ser. Sua sede disruptiva estava no sangue. O pai, também arquiteto, o criou com uma visão aberta do mundo e de seu tempo. Ele mesmo definia a própria família como burguesa, liberal e culta. Reconhecia, tanto em sua mãe quanto em seu pai, um espírito principalmente “europeu”.

Essa posição em relação às coisas se concretizou enquanto estudava na Escola Virtèlia e depois na Escuela Técnica Superior de Arquitectura de Barcelona, ​​de onde foi expulso em 1957 por atividades políticas relacionadas principalmente a ideias contraculturais. Sua formação terminou na Escola de Arquitetura de Genebra, na Suíça.

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Foto: cortesia Ricardofobill.com

Uma forma de habitar

Sua atitude inquieta e a grande curiosidade faziam com que estivesse sempre disposto a trabalhar com pesquisadores, escritores, matemáticos e até mesmo filósofos. Ao lado deles, criou o Ricardo Bofill Taller de Arquitectura (RBTA) em 1963. Não se tratava apenas um espaço para criar casas e edifícios, era uma usina de ideias utópicas: propunha criar um tipo de cidade e uma forma de habitar que afetaria o espírito humano.

Nessa época, Bofill se declarava ligado aos movimentos contraculturais que circulavam nos Estados Unidos e queria adotar essas ideias. Baseado nessa mesma filosofia, abriu seu escritório em Paris na década seguinte e enfrentou cada um de seus projetos.

Até os últimos dias, com a colaboração dos filhos, Ricardo E. Bofill e Pablo Bofill, e dos sócios Peter Hodgkinson e Jean-Pierre Carniaux, Bofill tratava de defender essa forma de trabalhar. Fazia isso na antiga fábrica de cimento nos arredores de Barcelona, que transformara na sede de seu escritório. O RBTA continua, e certamente continuará, a aplicar seu humanismo e inteligência cultural voltados para o futuro em lugares muito diferentes ao redor do globo.

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Foto do Hotel Vela por Cultura Inquieta

A filosofia de Bofill

- Desde o início, ele se propôs a trabalhar com grupos multidisciplinares internacionais. Atualmente, o RBTA conta com arquitetos, urbanistas, designers de interiores, gráficos e industriais de mais de 20 nacionalidades.

- Concebeu seus maiores edifícios como centros urbanos que geram relações entre o entorno e seus habitantes.

- Foi um defensor do modelo de cidade mediterrânea sustentável com um espaço público bem definido e planejado, com praças e ruas proporcionais. Baseou-se nesse modelo até mesmo para suas propostas para a Place de l'Europe em Luxemburgo e o ambicioso projeto de extensão da cidade de Moscou.

- A pesquisa também tinha valor para ele. Desenvolveu projetos que investigaram as possibilidades de uso do vidro e do aço em escritórios, espaços sociais e equipamentos culturais.

- Deu especial atenção à habitação social. Este aspecto de sua carreira pôde ser desenvolvido particularmente em Paris.

Melhores obras de Ricardo Bofill

Com seu escritório, o arquiteto liderou a criação de mais de mil obras arquitetônicas em 40 países. Seus projetos podem ser encontrados no Japão, Espanha, França, Itália, Rússia, Marrocos, Iraque, Estados Unidos e Suécia.

A seguir, relembramos algumas de suas obras arquitetônicas mais impressionantes.

Walden 7 - Sant Just Desvern, (Barcelona) Espanha

(1975)

Um dos projetos mais queridos do arquiteto, Walden 7 é uma lição incrível de como a arquitetura pode enobrecer contextos suburbanos e participar da criação da comunidade dentro de complexos.

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Walden 7, o edifício residencial de diferentes dimensões

Localizado próximo de Barcelona, ​​​​no centro de um terreno suburbano anteriormente ocupado por uma fábrica de cimento, o Walden 7 se destaca como um forte urbano cor de terracota, com complexidade estrutural interna e externa.

No interior, há 446 apartamentos interligados por um sistema de pontes e varandas que estimulam o senso de comunidade no complexo. Destaque também para a paleta de cores composta por tons de vermelho, azul e amarelo.

Um exemplo magnífico de como projetos de habitação social podem resolver não só as necessidades habitacionais, mas também do tecido social.

Hotel W - Barcelona, ​​​​Espanha

(2010)

Com sua forma particular de vela mestra içada, o Hotel W localizado em Barcelona inaugura de forma contundente a nova entrada do porto da cidade.

Em diálogo direto com o contexto marítimo que o circunda, o edifício propõe formas ondulantes e uma estrutura que procura mimetizar o azul do mar.

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Com o Hotel W, Bofill oferece um novo marco para o plano de renovação urbana de Barcelona

Para o projeto, a busca da equipe se concentrou em criar um marco que enquadrasse o plano de renovação urbana do litoral de Barcelona.

Nenhuma ideia foi descartada, resultando numa estrutura esbelta e monumental, formada por uma fachada de vidro prateado que multiplica os reflexos do edifício em função da luz ambiente. Da mesma forma, a cor da estrutura é um acerto por homogeneizar o panorama marítimo que define o cenário do hotel.

Ao contrário de seus projetos de institucionais ou de habitação social, este hotel de luxo em Barcelona nos lembra que edifícios monumentais podem ser contextualizados, aumentando os benefícios da paisagem natural.

Muralha Vermelha - Calpe, Espanha

(1973)

Talvez um dos complexos mais paradigmáticos construídos pelo arquiteto. A Muralha Vermelha é um edifício monumental localizado na cidade espanhola de Calpe, em Alicante, edificada à beira de uma falésia com uma forte cor rosa e simulando um forte.

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A Muralha Vermelha de Bofill é uma das referências da série sul-coreana de sucesso, 'Round 6'

Na Muralha Vermelha, Bofill homenageia a tradição arquitetônica árabe usando estruturas semelhantes às kasbahs, fortificações típicas de países como o Marrocos. Da mesma forma, a complexa estrutura interna possui afinidades com o trabalho do artista holandês M.C. Escher, conhecido por suas obras litográficas que representam espaços utópicos sem ordem lógica.

Ícone da arquitetura moderna, sua popularidade é tamanha que serviu como fonte de inspiração em séries de televisão como Round 6.

A Fábrica - Sant Just Desvern, (Barcelona) Espanha

(1973)

Residência de Bofill e sede de seu escritório de arquitetura, A Fábrica é um projeto que, em muitos aspectos, pode ser lido como o manifesto material do estúdio fundado pelo arquiteto.

Nele convergem tanto as ideias do movimento romântico como as do brutalismo, naquilo que o próprio arquitecto definiu como um espaço "doméstico, monumental, brutalista e conceitual".

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Escritório de arquitetura de Ricardo Bofill em Barcelona, ​​chamado La Fábrica

Além do interessante conceito, A Fábrica possui uma história interessante, pois é um complexo que remonta ao primeiro período de industrialização da Catalunha.

Mesmo com as contradições e ambiguidades relacionadas ao espaço, ao reformar e restaurar este antigo edifício, Bofill demonstrou que um arquiteto habilidoso pode ressignificar os espaços, separando a função da forma.

Hoje, A Fábrica continua sendo a sede do importante escritório que viu nascer os projetos mais emblemáticos de Bofill.


Les Espaces d'Abraxas - Noisy-le-Grand, (Paris), França

(1982)

Complexo icônico no Vale do Marne, departamento francês próximo de Paris, Les Espaces d'Abraxas é uma obra monumental, combinando o estilo clássico francês com referências mediterrâneas dentro de um espaço que Bofill considerava barroco.

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Vista lateral do complexo semicircular Le Théâtre

Para este projeto, o arquiteto procurava criar um novo monumento urbano na região que servisse de ponto de encontro para as pessoas. Conseguiu isso através dos três complexos que compõem o espaço: Le Palacio, Le Théâtre e L'Arc.

Le Théâtre é o primeiro elemento do complexo que se destaca, pois funciona como um semicírculo que circunda a praça, atravessada no interior por L'Arc, uma estrutura modesta que serve de tela e é seguida pelo imponente complexo Le Palacio.

Fazendo uso da teatralidade como conceito e estilos diferentes, Les Espaces d'Abraxas são uma aula de como criar espaços que dialogam entre si.

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Vista frontal dos complexos Le Palacio e L'Arc, da obra Les Espaces d'Abraxas

Shiseido - Tóquio, Japão

(2001)

Localizada no prestigioso bairro de Ginza, esta obra arquitetônica tinha o objetivo de ser a sede da Shiseido, uma empresa de cosméticos fundada em 1872 no Japão.

Com uma forma esguia e uma fachada de estuque avermelhado que o torna um complexo diferenciado na linha urbana de Ginza, o edifício tornou-se uma referência para entender como traduzir narrativas de marca em valores arquitetônicos.

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O edifício Shiseido é uma homenagem ao distrito de Ginza e à empresa de cosméticos mais antiga do Japão

No interior, o edifício está dividido nos vários ramos de negócios da Shiseido, cada um com um conceito diferente que participa na coerência final da estrutura. Entre eles, destacam-se a área da Galeria, a Praça, o Salão Shiseido, o Salão de Beleza e uma área de novos restaurantes.

Acima de tudo, o edifício procura servir como uma homenagem não apenas à centenária empresa de cosméticos, mas também à história do bairro de Ginza.

Com o edifício Shiseido, Bofill ensina a traduzir a história de uma empresa e de um bairro emblemático do Japão numa estrutura que funciona como uma homenagem ao passado e uma expectativa para o futuro.

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Frente do edifício Shiseido no distrito de Ginza

Através de um amplo legado arquitetônico, que ajudou a repensar a forma como entendemos e interagimos com os espaços, a obra de Ricardo Bofill perdura no seu já lendário escritório de arquitetura e nas mais de mil obras presentes ao redor do mundo.

Seu compromisso com a experimentação e o radicalismo estarão sempre presentes em cada um dos espaços em que interveio ao longo da vida.

Texto escrito por @denisetempone e @karenmercado.

Versão em português de @ntams.

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