3d & animação

O especialista em videogames que trouxe a pixel art para a Netflix

O espanhol Daniel Benítez conta o que faz um profissional de pixel art e como criou os stickers de La Casa de Papel

A quinta temporada de La Casa de Papel (cuja Parte 2 acaba de estrear) contou com forte divulgação da Netflix. Além das ações convencionais de marketing, a plataforma lançou stickers digitais para WhatsApp inspirados na estética pixel art desenvolvidos por dois espanhóis especialistas no mundo dos videogames.

Os emoticons são obra da produtora Mucho Pixels, formada pelo diretor de arte de Sevilha e professor da Domestika, Daniel Benítez (@dabntz), que desenvolve jogos para empresas como Google, Cartoon Network e Gamee, e é especialista em pixel art, e Jesús Garrido Guisado, amigo da adolescência e compositor digital sênior, especializado em efeitos visuais, com um currículo que inclui trabalhos para Star Wars (episódios 8 e 9), Vingadores: Guerra Infinita e a famosa cena do ataque do urso de O Regresso.

Sticker animado favorito de Daniel

Em seus cursos, Daniel ensina desenvolvimento de videogames 2D, desde os personagens até os cenários mais incríveis, e tenta fazer com que todos entendamos o que faz um profissional de pixel art.

Conversamos com ele sobre o processo criativo do projeto e ouvimos os conselhos que dá para quem está começando a trilhar o caminho que combina arte, videogame e publicidade.

Formação multidisciplinar

A formação de Daniel é baseada no que ele define como três pilares fundamentais: produção audiovisual, publicidade e design gráfico. Nos primeiros anos de aprendizagem, fez de tudo: curtas, trabalhou para agências de publicidade e se aprimorou, principalmente, em técnicas de design digital.

Após vários anos trabalhando em agências, Daniel decidiu criar a própria empresa junto com outros colegas. Em 2014 fundou a @Fourattic, um estúdio independente de videogames com sede em Sevilha, Espanha. Depois de vários projetos e jogos menores, em 2015 o estúdio desenvolveu seu primeiro grande jogo: Crossing Souls, uma aventura pixel art oitentista publicada pela Devolver Digital para Microsoft Windows, macOS, Linux, PlayStation e Nintendo Switch. Este projeto abriu a porta inesperada para um novo amor: a arte pixel.

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O primeiro trabalho de pixel art de Daniel foi para o jogo 'Crossing Souls'

A paixão pela pixel art

Pixel art, ou arte pixel, é uma forma de arte digital criada através de um computador com o uso de programas de edição de gráficos rasterizados. Nesse tipo de arte, as imagens são editadas no nível de pixel e se parecem com as de antigos jogos para PC, consoles e celulares.

Daniel conta que, na época em que embarcou na produção de Crossing Souls, sabia pouco ou nada sobre pixel art. “Para fazer meu trabalho tive que aprender a pixelar do zero. Durante os três anos de desenvolvimento do projeto fui aprendendo a técnica e melhorando aos poucos”, explica.

“Com um ano de desenvolvimento, havia melhorado tanto que inclusive tive que redesenhar partes do jogo já finalizadas para equilibrar toda a direção de arte. A evolução da minha técnica era muito perceptível", observa. Daniel lembra do período como uma época especialmente feliz, em que sua carreira começou a dar uma guinada. “Durante esse período, me apaixonei pela pixel art. Pesquisei e aprendi tanto que senti que era capaz de transformar o pixel em algo mais e, desde então, tive essa ideia em mente. Evoluir a pixel art o máximo possível", lembra.

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Pixel art recria a imagem de jogos antigos para PC, consoles e celulares


Pixel art aplicada a stickers

Daniel explica que, embora já tivesse realizado trabalhos de marketing digital em agências de publicidade que incluíam a criação de stickers, nunca havia usado a estética da pixel art antes. “A coisa mais parecida com stickers pixelados que são os emotes para o Twitch da Mucho Pixels. Os emotes do Twitch são bastante semelhantes ao que conhecemos como stickers”, detalha.

No projeto que a Netflix confiou à produtora, o desafio não era apenas aplicar a pixel art, mas também fazer isso em pequenas peças que os fãs de La Casa de Papel quisessem usar e que, ao mesmo tempo tempo, transmitisse algo para quem nunca assistiu à série. Para atingir o objetivo, Daniel e o sócio analisaram em detalhes as características que tornam um pack de adesivos eficaz. Agora o especialista compartilha essa análise com a Domestika.

Os stickers de La Casa de Papel estão disponíveis no WhatsApp

Características que tornam um pack de stickers eficaz

“O objetivo número um de um sticker pack é a usabilidade”, analisa Daniel. "Um sticker precisa ser legível e compreensível à primeira vista, de forma que os usuários o coloquem em uso de forma quase instintiva. Devem substituir, em suma, algumas das expressões mais usadas do nosso vocabulário nas plataformas de bate-papo: 'olá'; 'hahaha'; 'curti'; 'não curti'; 'até logo'", revela.

“O objetivo número dois é adaptar essas expressões ao imaginário da série e seus personagens. Ou seja, se tivermos que criar um sticker de gargalhada, teremos que pesquisar qual dos personagens da série é o mais adequado para interpretar a ação. Dessa forma, explica, “quando colocarmos em uso o pack de stickers, os usuários sentirão as principais motivações de cada personagem, e essa será a conexão direta com a narrativa da série”.

Por fim, Daniel ressalta que é preciso destacar a direção de arte. “Aqui há dois aspectos: a direção de arte da série e a direção de arte (e suas limitações) de um pack de stickers”, aprofunda. “Para um sticker funcionar, ele tem que trabalhar com altos contrastes, contornos e cores que funcionem bem em um formato tão pequeno. No entanto, a direção de arte da série não precisa atender a essas características, então é preciso um trabalho de adaptação para que ambos os aspectos funcionem, com o pack muito legível e a série muito reconhecível”, analisa.

“É importante que os stickers sejam entendidos por quem vê e por quem não vê a série”, explica Daniel

O passo a passo para fazer stickers por encomenda

Como trabalhar um pedido? Pedimos a Daniel que descreva o trabalho específico que um profissional realiza ao receber uma encomenda como o da Netflix. Eis o que nos disse:

1. O primeiro passo do processo é sempre estudar o briefing, levando em conta as necessidades do cliente, as particularidades do projeto e os objetivos que deve cumprir. “Após ler o briefing, a primeira coisa que fizemos foi continuar assistindo a série inteira, pois tanto Jesús quanto eu já tínhamos visto várias temporadas. Desta vez, foi diferente. Fomos anotando tudo: cores mais usadas, detalhes dos personagens, elementos icônicos e recorrentes da série, as gírias que utilizavam, os momentos épicos de cada temporada, os personagens mais amados e odiados”, relembra.

2. Tendo tudo isso em mente, criaram a primeira série de esboços em preto e branco. “Normalmente, os esboços são muito básicos e têm poucos detalhes. Mas, ainda assim, o ideal é que o esboço represente claramente a ideia de cada sticker”, especifica. “Criei os stickers no mesmo programa que uso para criar pixel art para videogame: Pyxel Edit. É o programa com o qual crio animações de forma mais rápida e que, para mim, é mais intuitivo. O Pyxel Edit também é o programa que ensino a usar em meus três cursos na Domestika sobre pixel art para videogames.

3. O teste "caseiro" é decisivo. “Começamos a usar os esboços em nossas conversas cotidianas. Dessa forma, encontramos detalhes que não funcionavam bem, como algumas expressões, ou objetos que não eram totalmente legíveis e o que era preciso para entender o design.

4. Normalmente são realizadas algumas sessões de feedback entre o cliente e o criativo antes de chegar à próxima etapa de desenvolvimento, que seria a aplicação de cor. “Na pixel art, a paleta de cores costuma ser limitada, no meu caso costumo usar entre 32 e 64 cores no máximo. Assim, uma vez que o cliente tenha selecionado os stickers candidatos para aplicar a cor neles, chegamos lá e tudo é entregue colorido", conta.

5. Depois de outras rodadas de feedback, o próximo passo é começar a animar. Os packs de stickers podem ser baixados, então, segundo Daniel, quanto menos o arquivo pesar em Mb, melhor. “Por conta disso, tínhamos uma pequena limitação: as animações não deveriam ultrapassar 30 frames. A pixel art é ideal para animar com poucos frames, de forma que essa limitação jamais foi um problema”, destaca.

6. Por fim, após selecionar os stickers finais, eles são exportados. O WhatsApp é um aplicativo que pode ser usado não só em celulares, mas também em computadores e tablets. Por isso, todos os stickers foram exportados para um tamanho adequado a todos os formatos em que seriam utilizados. “Nesse caso, 512x512px era o tamanho final dos stickers animados. Versões estáticas, sem animação, também são exportadas, já que os stickers servem como capas do pack e outros formatos além do próprio chat”, revela.

Os adesivos de La Casa de Papel abrangem vários estados de espírito

Dicas para quem quer se dedicar à pixel art

Com base em sua experiência e formação, estas são as dicas de Daniel para futuros profissionais da pixel art:

1. Aprenda a técnica. Você pode fazer isso aos poucos, com cursos, tutoriais e praticando muito no seu tempo livre. “Durante essa aprendizagem, qualquer pessoa vai perceber se o que está aprendendo é para si um hobby, ou algo que quer levar para o campo profissional. Ambos os caminhos são incríveis, mas o compromisso de fazer pixel art de forma profissional é algo que deve nascer do amor absoluto pela técnica, seu processo e suas possibilidades”, adverte.

2. Estude outras disciplinas. “Seria muito útil, por exemplo, ter noções de criação de cenários, design de interface, jogabilidade, uso de cores etc. No meu caso, aprendi isso com cursos e tutoriais e, principalmente, criando e analisando jogos. Repare em tudo ao jogar e destrinche cada quadro", detalha.

3. Não espere a chegada de projetos profissionais. Após aprender a técnica, comece a criar por conta própria ou junte-se a equipes de pessoas com preocupações semelhantes.

4. Exponha tudo na Internet e nunca deixe de trabalhar, melhorar e evoluir. Esta é a última dica, pois garante que as oportunidades virão, claro, basta estar preparado e ativo para aproveitá-las.

Tem interesse em se aventurar na pixel art? Gostaria de aprender a usar os recursos que Daniel lista neste post? Você pode fazer isso nos três cursos oferecidos pelo especialista na Domestika: Introdução ao desenho de personagens em pixel art, Animação de personagens em pixel art para videogames e Criação de cenários pixel art para videogames.

Além disso, você pode acompanhar de perto o trabalho da Muchos Pixels no Instagram e Twitter da produtora.

Se quiser conhecer melhor criativos de várias disciplinas, não perca a seção Entrevistas do nosso blog.

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