Arquitetura e espaços

A história de 5 arquitetas pioneiras que mudaram os rumos da arquitetura

Conheça mulheres pioneiras que também desenharam a história da arquitetura no Brasil, Espanha e Chile

Apesar das dificuldades, há mulheres que mudaram os rumos da arquitetura, sobretudo na primeira metade do século XX, quando a presença feminina na profissão era praticamente nula. Mulheres que decidiram dedicar-se às suas vocações mesmo que precisassem modificar seus projetos arquitetônicos ou recebessem críticas apenas por seu gênero, como a chilena Sophia Hayden.

Na Espanha, a primeira arquiteta graduada, Matilde de Ucelay, formou-se apenas em 1936. Neste mesmo país, embora os homens fossem os “mestres” do ofício, eram conhecidas como “las firmonas” pois se dizia que aceitavam todo tipo de trabalhos de arquitetura. Além disso, podemos contar nos dedos o número de mulheres que tiveram educação formal para exercer a profissão. Na década de 1930, apenas quatro se matricularam e, mesmo entre 1970 e 1975, menos de 10 mulheres se formavam por ano em Madri e Barcelona.

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Algumas destas mulheres estudaram na Escola Técnica Superior de Arquitetura de Madri

Para lembrar que também tiveram seu espaço neste setor criativo, revisitamos a trajetória de cinco mulheres pioneiras da arquitetura que se tornaram referência para gerações posteriores.

Sophia Hayden Bennett

Logo após graduar-se com louvor em Arquitetura (1890), a chilena Sophia Hayden enfrentou muitas portas fechadas em Santiago, no Chile, motivo pela qual começou a exercer a profissão de professora de desenho técnico em um instituto de Boston.

Exatamente na mesma época, estava sendo organizado um concurso para escolher o arquiteto de um edifício que integraria a Feira Mundial de Chicago (1893). Tratava-se de um pavilhão para falar das mulheres, suas conquistas e seus direitos.

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Sophia Hayden (1868-1953)

A proposta de Sophia foi proclamada vencedora entre treze candidaturas, embora tenha passado por diversas alterações impostas pelo Comitê de Construção. Alguns críticos, conhecendo quem estava por trás do projeto, criticaram as características "femininas" do edifício.

Embora o Women's Building tenha tido ótima recepção, Sophia recebeu tanta pressão que decidiu deixar a arquitetura para sempre.

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The Woman's Building (1893) foi demolido no fim da exposição

Matilde Ucelay

Começou seus estudos na Escola de Arquitetura de Madri em 1931 e, ao terminá-los, tornou-se a primeira arquiteta espanhola. Apenas três dias depois, veio a Guerra Civil.

Em 1937, passou a ser secretária da Associação de Arquitetos de Madri, mas três anos depois foi condenada em um Conselho de Guerra pela Direção Geral de Arquitetura por conta de sua filiação republicana e liberal. A consequência? Não poder exercer a profissão por cinco anos, além da proibição de assumir cargos públicos pelo resto da vida.

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Matilde Ucelay em sua mesa de trabalho. Imagem via "Blog de Jaime Urcelay"

Quando voltou oficialmente a dedicar-se à arquitetura, Matilde desenvolveu uma intensa atividade, assinando cerca de 120 projetos. Algumas das obras mais representativas são a Casa Oswald em Puerta de Hierro (Madri), a Casa Benítez de Lugo (Las Palmas, Gran Canaria) e a Casa de Margarita Ucelay em Long Island.

O reconhecimento veio em 2004, quando recebeu o Prêmio Nacional de Arquitetura.

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Desenho da Casa Ucelay em Long Island. Imagem via "Blog de Jaime Urcelay"

Rita Fernández Queimadelos

Embora o pai de Rita não apoiasse sua saída de casa para estudar, sua avó paterna conseguiu que ela se matriculasse no curso de Ciências Químicas em Santiago de Compostela.

Nessa época, ao frequentar as aulas de desenho na Escola de Artes e Ofícios, destacou-se por suas habilidades. Tanto que um de seus professores conseguiu convencer seu pai a deixá-la estudar arquitetura. Ingressou na Escola de Arquitetura de Madri e em 1941 tornou-se a primeira arquiteta galega.

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Imagem via "Repositório Universidade da Coruña".

Rita foi muito ativa profissionalmente, tanto na esfera pública quanto na privada. Trabalhou na área de Projetos da Seção de Reconstrução da Direção Geral de Regiões Devastadas e Reparos em Madri (DGRDR) e como arquiteta escolar provincial em Múrcia.

Alguns de seus projetos de reconstrução são o Patronato de Proteção da Mulher (em San Fernando de Henares) e a reconstrução da Prefeitura de Fuenlabrada.

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Imagem via "Los ojos de hipatía"

Afastada da arquitetura por alguns anos devido à maternidade, retomou seu trabalho em Múrcia no ano de 1955. Enfrentando as dificuldades dos anos 60 e longas jornadas de trabalho, conseguiu consolidar seu estúdio de arquitetura, sempre defendendo a autonomia feminina.

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Imagem via "Un día, una arquitecta"

María Cristina Gonzalo Pintor

Além de ser a terceira mulher graduada em arquitetura na Espanha, também foi uma das primeiras doutoras em arquitetura do país.

Em 1932, iniciou os estudos na Escola Técnica Superior de Madri, que conciliou com os de Ciências Físicas e Matemáticas na Universidade de Madri. Após superar uma oposição, ingressou no Órgão Superior do Instituto Nacional de Meteorologia.

“A princípio parece que os meninos nos olhavam com certa ironia, pareciam mais constrangidos do que nós. Só um professor proibiu assoviar quando passávamos e uma vez deu uma bronca na classe por causa dessas brincadeiras infantis. Depois, nada de especial. Era, na verdade, um pouco estranho. Não eram tempos de mulheres na universidade, nem nesse tipo de carreira, a ponto de uma revista fazer uma reportagem comigo na época. Mas a verdade é que nos trataram exatamente igual aos homens." - Maria Cristina Gonzalo
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Imagem via "Los ojos de hipatía"

Com o fim da Guerra Civil, María Cristina retomou os estudos de Arquitetura até a graduação, em 1940. Embora tenha trabalhado por um período na Direção de Cidades Devastadas de Madri, a maior parte de sua atividade profissional foi exercida na Cantábria.

Não foi pioneira apenas neste universo: chegou a disputar o campeonato nacional de esqui, em Candanchú.

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A única mulher é a arquiteta Cristina Gonzalo. Imagem via "Eldiario.es"

Lina Bo Bardi

Achillina Bo foi uma das primeiras mulheres a estudar arquitetura na universidade mais importante de Roma, La Sapienza. Após a graduação, Lina mudou-se para Milão e fundou, com seu amigo Bruno Zevi, a revista "A - Cultura Della Vita".

Também filiou-se ao Partido Comunista Italiano e começou a refletir em suas criações a ideia da arquitetura como um espaço de transformação social e coletiva.

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Imagem via "Circarq"

Em 1946, emigrou com o marido para o Brasil e em 1951 obteve a cidadania brasileira. Era apaixonada pelo país. Quando o magnata Assis Chateaubriand compartilhou com ela sua ideia visionária de criar um grande museu de arte, Lina aceitou o projeto e desenhou o MASP, um dos quatro principais marcos da arquitetura local.

Sua única exigência foi que não houvesse distinções entre as artes, chamando a instituição de “Museu de Arte de São Paulo”.

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MASP, inaugurado em 1968 na famosa Avenida Paulista

O projeto fez com que os Bardi se instalassem definitivamente no Brasil, na Casa de Vidro (1951), atual sede do Instituto Bardi e uma autêntica declaração do estilo da arquiteta.

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Casa de Vidro, onde o casal viveu. Imagem via "Instituto Bardi"

Em 1977 deu início a outra grande obra, o centro de lazer SESC Pompeia, referência para a história da arquitetura da segunda metade do século XX.

Bo Bardi faleceu em 1992, deixando uma marca indelével no Brasil e na história da arquitetura.

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SESC Pompeia: adaptação da antiga fábrica

María Juana Ontañón, Mª Eugenia Pérez Clemente, Pascuala Campos de Michelena… São alguns dos nomes que poderíamos acrescentar neste texto. Mulheres pioneiras que conseguiram ocupar um espaço reservado aos homens.

Curtiu o texto? Conhece outras mulheres pioneiras na arquitetura? Deixe seu comentário no fim do post.

Versão em português de @ntams.

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