Arte

Senta que lá vem meme! Como memes se tornaram a linguagem criativa da internet

Memes se tornaram a forma mais importante de representação visual da nossa época, além de uma plataforma criativa. Como chegamos até aqui?!

Quando você recebe uma mensagem de um amigo ou familiar, as chances são grandes de que essa pessoa te envie uma imagem engraçada no lugar de uma simples mensagem de texto. E não uma imagem qualquer, mas uma cheia de significado que expressa algum sentimento ou reação. Essa maneira de se comunicar se tornou tão comum que já se tornou invisível, afinal está em todos os lugares e em todas as redes sociais, do grupo de Whatsapp, até o feed do Instagram, Twitter e, claro, TikTok.

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Trollface

Memes se tornaram a forma mais importante de representação visual da nossa época, assim como um dia foram as pinturas rupestres ou o início do desenvolvimento de alfabetos para organizar línguas em símbolos cada vez mais complexos. Em nosso tempo, memes se tornaram símbolos e carregam informações que definem diversas culturas, por isso sua importância.

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Origem

A origem do termo vem, na verdade, da biologia. No livro "O Gene Egoísta", o biólogo Richard Dawkins fala sobre como culturas e ideologias são transmitidas de forma orgânica, da mesma maneira que nossos genes. Portanto, memes, uma palavra inspirada em genes, são pequenos pedaços de memória cultural que se espalham em inúmeros contextos sociais, gerando novos significados.

"A gente pode dizer que os memes são, primeiro, fruto de uma cultura popular de internet e fruto da cultura da participação. Porque os memes são veículos de transmissão de ideias, que podem ser imagens, textos, vídeos, gifs e só circulam por causa dos internautas e da atividade das pessoas na rede. A característica principal dos memes é ser um conteúdo gerado pelo próprio usuário, por conta da dinâmica da cultura da participação em que é muito fácil produzir algo, editar uma foto e distribuir esse material. Um meme sempre depende de alguns fatores: apropriação, distribuição e transformação", diz Issaaf Karhawi, doutora em Ciências da Comunicação (PPGCOM-ECA-USP) e pesquisadora digital.

A cultura da participação, da qual fala Issaaf, remete a um conceito que o filósofo e teórico de cultura Pierre Lévy define como inteligência coletiva no livro 'A inteligência coletiva': “uma inteligência distribuída por toda parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva das competências. [...] formamos uma inteligência coletiva, logo existimos eminentemente como comunidade.”

Os memes, portanto, não existem sem uma comunidade, ou um grupo que os abraça criativamente, para produzí-los e disseminá-los.

Além disso, um meme necessita de quatro elementos para ser considerado um meme: contexto, subversão do contexto, efemeridade e democratização. Simplificando: quem cria um meme se alimenta do contexto, o subverte, geralmente utilizando humor, em favor de um assunto do momento e que, por fim, precisa ser simples o suficiente para que as pessoas de uma determinada comunidade entendam. É, por si só, um processo criativo vivo e constante.

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LOL

"Assim como todo mundo virou fotógrafo graças a difusão das câmeras digitais instaladas nos smartphones, hoje, todo mundo também pode ser um cartunista, utilizando uma série de plataformas online, que permitem a qualquer um, como diria Glauber Rocha, nos dias de hoje, com um celular na mão e uma ideia na cabeça, ser o produtor e canal deste conteúdo", aponta Icaro de Abreu, inventor e Vice-Presidente de criação na Fbiz.

Inteligência coletiva

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O conceito de inteligência coletiva conversa com o conceito de excedente cognitivo, defendido pelo guru da internet Clay Shirky, no livro 'A cultura da participação: Criatividade e generosidade no mundo conectado'. Segundo Clay, este excedente é o tempo extra que temos em nossas vidas, um tempo que pode ser investido em algum tipo de atividade que não seja trabalho formal, dentro da rede, seja produzindo conteúdo, compartilhando informações ou se mobilizando numa determinada causa. Esse excedente é aplicável tanto para temas do entretenimento, quanto em áreas como a de software livre e causas humanitárias. São pessoas utilizando o excesso de inteligência disponível na rede para criar coisas.

A vantagem deste novo cenário colaborativo é a possibilidade de, nas palavras de Shirky: “Estar conectados uns aos outros, um desejo que a televisão, enquanto substituto social, elimina, mas que o uso da mídia social, na verdade, ativa.”  É por isso que, de acordo com o autor, os memes dão tão certo no meio digital e os assuntos relacionados a eles ganham novas potências. Afinal, é preciso uma motivação humana e generosidade para produzir esse conteúdo.

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"Temos vários tipos de meme, mas o associado ao humor a gente vê mais. As pessoas se conectam, portanto, por esse conexão com a emoção, mas também temos uma conexão como uma possibilidade de criação de laços, ainda que esses laços não sejam tão diretos com outras pessoas, mas compartilhar um meme é um símbolo de integração a um grupo. E isso é importante para nós, seres sociais, estarmos dentro de comunidades." complementa Issaaf Karhawi.

E a criatividade?!

A criatividade entra nesse jogo como uma substância que une o contexto social com referências de entretenimento, política, movimentos sociais e cultura pop, por exemplo, para gerar conversas. Para Issaaf, os memes dependem da apropriação e distribuição das pessoas, além de um envolvimento criativo. O meme tem, portanto, uma relação íntima com a criatividade. "Os virais, por exemplo, são diferentes dos memes: um vídeo compartilhado dezenas de vezes, mas cujo conteúdo não sofre alterações. Os memes sofrem alterações, por isso dependem dessa entrada criativa", diz.

Essa criatividade também extrapola barreiras, de acordo com Bruno Costa, repórter de cultura da Vogue Brasil. "A globalização permite que um meme seja uma linguagem que serve em um contexto muito regional, mas pode servir também para outros exemplos. O melhor caso disso é o da Nazaré Tedesco, que para os brasileiros é uma vilã icônica de novela, mas para alguém em Portugal pode ser só uma pessoa confusa. Ao mesmo tempo em que é regional, produzido por quem consome uma determinada cultura, é também capaz de se universalizar. É completamente alinhado com a internet e a cultura pop atual", complementa.

Não é mais incomum ver, por exemplo, outras produções artísticas se alimentando dos memes. Katy Perry já fez um videoclipe com Gretchen, atriz brasileira e estrela de milhares de memes criados a partir de imagens de sua participação no reality show A Fazenda, em 2012. E iniciativas como o Museum of Internet e KnowYourMeme.com, documentam as criações de milhares de memes que circulam na rede. Basta uma breve pesquisa online para encontrar também exposições de memes, listas, e discussões sobre o papel artístico desses conteúdos.

Os memes representam um processo de criação artística em que não existe autoria, mas criatividade em sua forma mais pura: criamos e lançamos ao mundo para que outras pessoas utilizem esses conteúdo como base para criar novas formas visuais, novos significados, novas obras em novos contextos. "Quem cria meme é muito criativo, porque é preciso uma sagacidade absurda para atingir o maior número de pessoas. E a criatividade importa sim, afinal quanto mais acessível, melhor. O meme precisa ser assim", diz Bruno Costa.

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Meme do reality show de Drag Queens, Glitter: Em busca de um sonho

"Os memes vieram para, de uma vez por todas, construir um novo fazer. É o ao vivo possível a todos versus a escola cinematográfica, que é coisa de rico e sempre será. Isso, por muito tempo, excluiu muita gente boa desta conversa. Hoje elas estão inseridas e caíram no gosto do público. Não tem mais volta.", finaliza Ícaro de Abreu.

Essa comunicação visual, cada vez mais presente em nosso mundo conectado e mediado por telas, é nosso novo meio de comunicar sentimentos, ideias, insatisfações e, porque não, exercitar a criatividade. Um processo orgânico que deixa a rotina e os feeds sociais mais leves.

Referências:

LÉVY; Pierre. A inteligência coletiva. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2015. (p. 28/29).

SHIRKY, Clay. A cultura da participação: criatividade e generosidade no mundo conectado. Tradução Celina Portocarrero. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. (p. 18)

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