Arte

Cinco obras literárias de Clarice Lispector recheadas de imagens potentes

Às vésperas do centenário de nascimento da grande escritora ucraniana naturalizada brasileira, reunimos momentos criados por ela que, de tão imagéticos, acabaram transformados em obras visuais

Ela alimentou como ninguém a aurora da era dos memes no Brasil. Frases inspiradoras extraídas dos textos de Clarice Lispector (ou, frequentemente, inventadas por fãs ou trollers para tirar uma casquinha da sua fama) varreram a internet no país, na década de 2000. Na gênese da lispectormania digital estava a narrativa tão peculiar, recheada de poderosas imagens – também do inconsciente – dessa escritora nascida na Ucrânia há 100 anos e criada no Brasil, onde desenvolveu uma prolífica carreira como romancista, ensaísta e cronista.

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Narração em primeira pessoa, o uso de longos fluxos mentais (em frases curtas) e de análises psicológicas ao apresentar personagens e cenas, momentos de epifania, uma mistura libertária, sem qualquer amarra, dos gêneros literários, a evocação de uma feminilidade ancestral, algo mística, e um sem-número de frases irônicas e capazes de comunicar muito com poucas palavras levaram várias de suas obras, fossem novelas ou contos, às telas, aos ensaios fotográficos e também aos palcos.

A poucos meses do centenário de nascimento de Clarice Lispector (morta em 1977), reunimos cinco dos momentos mais “imagéticos” da obra desta escritora brilhante, colocada por diferentes críticos e tradutores ao lado de Franz Kafka no rol dos maiores criadores literários judeus do século XX.

1. Água Viva

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Este romance epistolar é uma ode – e uma maldição – à vida, uma espécie de carta escrita a um interlocutor silencioso na qual uma voz repleta de energia feminina recorre à música, à natureza e às artes plásticas para entender o sentido, as dores e as delícias da existência. O estilo poético desta obra em prosa deixa abertas infinitas possibilidades de interpretação. "O que estou te escrevendo não é para se ler - é para se ser", ela define num trecho. "Uma relação íntima estabeleceu-se intensamente entre mim e a flor: eu a admirava e ela parecia sentir-se admirada... e tão gloriosa ficou na sua assombração e com tanto amor era observada que se passavam os dias e ela não murchava: continuava de corola toda aberta e túmida, fresca como flor nascida", discorre em outro momento.

As descrições detalhadas, e cheias de características humanas, que faz dos diferentes tipos de flores é um dos momentos mais imagéticos da obra.

Montagens teatrais, espetáculos de dança (como "Instante-Ya", da coreógrafa uruguaia Andrea Arobba) e as fotografias acima, do ensaio "Água Viva", da fotógrafa cearense Fernanda Leal, derivaram desse pequeno grande livro.

2. Minhas Queridas

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Organizado pela crítica e acadêmica Teresa Montero, é um livro que reúne cartas trocadas por Clarice e suas irmãs, Elisa e Tânia. Herança judaica, a fuga da Ucrânia durante os pogroms antissemitas do início do século XX, a morte da mãe delas, vítima da sífilis: são muitos os temas e traumas tratados ou, pelo menos, evocados nessas epístolas cheias de imagens íntimas e universais ao mesmo tempo.

A fotografia acima, na qual as atrizes Marilene Grama e Simone Evaristo interpretam as irmãs com um candelabro judaico tradicional em primeiro plano, é da montagem de uma peça de teatro homônima dirigida por Stella Tobar e exibida este ano em São Paulo.

3. A Hora da Estrela

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Uma das obras mais famosas de Clarice, este romance protagonizado por Macabéa, uma humilde migrante alagoana no Rio de Janeiro cuja vida, em tudo sofrida, está prestes a sofrer um giro inesperado, ganhou diversas adaptações e inspirou muitas obras de artes visuais.

Uma das grandes características estéticas do romance são os fantásticos monólogos interiores da protagonista, capazes de evocar muitas imagens. Sua maneira de vestir, de andar, sua aparência, seus modos tímidos, tudo ganha descrições tão detalhadas que nos permitem construir mentalmente, com detalhes, seu universo.

Os dois fotogramas acima mostram as atrizes Marcélia Cartaxo (Macabéa) e Fernanda Montenegro (Madame Carlota, a cartomante) em diferentes momentos do filme "A Hora da Estrela", dirigido por Suzana Amaral com roteiro (dela e de Alfredo Oroz) baseado no livro de Clarice.

Já a pintura é uma interpretação de Macabéa feita pela artista plástica Celly Inatomi para a série "As Meninas", toda ela inspirada nas principais protagonistas dos livros da escritora.

4. A Via Crucis do Corpo

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"Xavier era um homem truculento e sangüíneo. Muito forte esse homem. Adorava tangos. Foi ver O último tango em Paris e excitou-se terrivelmente. Não compreendeu o filme: achava que se tratava de filme de sexo. Não descobriu que aquela era a história de um homem desesperado. Na noite em que viu O último tango em Paris foram os três para cama: Xavier, Carmem e Beatriz. Todo o mundo sabia que Xavier era bígamo: vivia com duas mulheres."

Impossível não esculpir todo um universo com base tão-somente na leitura do primeiro parágrafo do delicioso conto "A Via Crucis do Corpo", de Clarice. Aos que buscam imagens já materializadas, basta ver o filme "O Corpo" (fotograma acima), de José Antonio Garcia, uma adaptação bastante fiel ao universo concebido por Clarice.

5. Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres

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Lóri é uma professora de 30 e poucos anos aparentemente incapaz de viver relações profundas. Conhece um professor de filosofia, Ulisses, por quem se apaixona, sem conseguir, no entanto, concretizar essa paixão totalmente, enquanto ele diz que a aguardará até que ela esteja pronta.

Experimento radical de uso de fluxos mentais, toda a história se passa dentro da cabeça da protagonista neste romance publicado no final dos anos 1960. Nada que não seja capaz de nos levar ao seu mundo, a um Rio de Janeiro dominado pela natureza, pelo sol, por elementos naturais que evocam os prazeres, os sentimentos e os estados mentais da personagem.

Adaptar a história ao cinema (fotogramas acima), no filme "O Livro dos Prazeres", com direção de Marcela Lordy – e cujo lançamento será este ano, marcando o centenário da escritora –, exigiu dez tratamentos de roteiro (escrito por ela e por Josefina Trotta). Detalhes ultracinematográficos como a folha vermelha, outonal, que se desprende da árvore, toca o ombro da protagonista, cai ao chão, de onde é recolhida por Ulisses, não faltarão no filme.

O livro, aliás, foi o primeiro publicado por Clarice depois de "A Paixão Segundo G.H.", tido por muitos como a obra-prima da escritora e que também ganha adaptação para a tela grande a ser lançada este ano.

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