Cento e duas badaladas
por munikeavila @munikeavila
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-- Pelo visto vocês já conheceram o louco da vila - disse Raff, nossa anfitriã, ao nos encontrar caminhando em direção a sua casa, na única estradinha que cruzava a cidade toda, acessível apenas para pedestres. Ela se referia ao estranho homem que nos acompanhava pelo caminho falando sem parar, quase uma especie de monólogo que não fazia sentido nenhum.
Logo descobrimos que o tal homem tentara suicídio com um tiro na cabeça e, bem, não dera muito certo. Agora carregava as sequelas e o título de louco da cidade. Seguimos caminho com Raff enquanto o homem ficava para trás. Ela, uma inglesa de origens italianas, carregava na fala um forte sotaque e ficou feliz em descobrir que podia voltar a falar inglês com aqueles dois estranhos, já que ninguém mais na vila sabia o idioma, a não ser Paul, seu marido polonês.
Ao dar mais uns passos nos deparamos com um grupo de senhorinhas sentadas num banco em frente às suas casas. "Essas são as câmeras de segurança da cidade", dizia Raff, em inglês, para que ninguém mais a entendesse. Ao passar pelas velhinhas, a conversa foi tomada por silêncio e todos os olhares se voltaram a nós. Nos encaravam dos pés a cabeça, prontas para darem suas opiniões assim que desaparecêssemos de suas vistas.
A medida que seguíamos, Raff ia nos contando um pouco mais sobre aquele pequeno vilarejo medieval no alto das montanhas do Piemonte, cercado por pinheiros e cervos, daí o nome: Cervatto. As casas eram todas feitas de pedras, havia apenas uma estrada para chegar até o local e algumas vilas ao redor eram tão remotas que só podiam ser acessadas por bicicleta, motocicleta ou a pé. O comércio local era composto apenas de uma vendinha e um restaurante, algo suficiente para um lugar onde a população não passava de setenta habitantes.
O restaurante na praça principal - a única da cidade - era o ponto de encontro dos residentes. Também era o único local com acesso a internet, então era comum ver pessoas sentadas com tablets lendo notícias ou conversando pelo skype, contrastando com os senhores lendo jornais e crianças jogando cartas ou peão. Parecia que tínhamos voltado no tempo.
Foi neste mesmo restaurante, aliás, que conseguimos uma garrafa de vinho da torneira para acompanhar nossa janta em casa, que o proprietário emprestou prontamente, sem nunca ter nos visto antes. Bastava devolver a garrafa no dia seguinte. Para um lugar onde todo mundo se conhecia, não tinha mesmo como fugir com uma garrafa.
Ver gente nova andando pelo local também despertou curiosidade em algumas pessoas que nos paravam na rua para conversar um pouco. E quem diria! Em uma cidade tão minúscula conhecemos até um senhor que morara no Brasil, sabia descrever Porto Alegre como um residente. Bem que os italianos costumam dizer que tutto il mondo è paese (o mundo é apenas uma pequena cidade).
Ao devolver a tal garrafa no dia seguinte, uma família ocupando uma grande mesa nos convidou para almoçar junto à eles. Em uma mistura de italiano com dialeto, a avó contava sobre sua manhã:
- Hoje acordei mais cedo e decidi ficar contando as badaladas do sino enquanto estava na cama. Foram cento e duas badaladas. Qual o sentido de cento e dois? - ela se perguntava, chamando atenção de todo o local.
- Jesus, Maria, José, Espírito Santo…Dá para contar os personagens da bíblia e ainda sobra! - um deles exclamou, enquanto todo o restaurante ria.
- E se tocam os sinos para cada residente? Ainda assim não é suficiente , sobram muitas badaladas - outro se perguntava.
De repente, o almoço virou um grande episódio de Sherlock Holmes, onde todos tentavam resolver o enigmático caso das cento e duas badaladas. Em um lugar tão remoto e pacato onde os dias parecem sempre iguais, ainda há espaço para mistérios.
1 comentario
Olá. Muito obrigado por entrar no curso e parabéns por concluí-lo. Espero que o que vimos tenha sido útil para você e continue a servi-lo.
Acabei de ler "Cento e duas badaladas" e gostaria de deixar alguns comentários. Como sempre digo nesses casos, mesmo que alguns dos comentários não sejam positivos ou não enfoquem o que mais lhe interessa em seu próprio texto, por favor, não os leve a mal. Considere que são feitos com o intuito de ajudá-lo a continuar melhorando seu trabalho, e que em qualquer caso são opcionais. Ah, e devo avisar que traduzi esta resposta usando o Google Translate, então podem haver alguns erros.
Os escritores Tanith Lee e Shirley Jackson são dois grandes expoentes desse tipo de narrativa enigmática. Se você ainda não conhece suas obras, eu os recomendo: podem ser úteis para encontrar exemplos de como expandir ou fazer narrativas mais sutis semelhantes à que você escreveu.
Desejo a você muito sucesso em seus projetos futuros e agradeço novamente. Até logo!
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