leonardo finotti: série pelada
leonardo finotti: série pelada
by Leonardo Finotti @leonardofinotti
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Do campo para a cidade
a pelada é a matriz do futebol sul-americano... É praticada, como se sabe, por moleques de pés descalços no meio da rua, em pirambeira, na linha de trem, dentro do ônibus, no mangue, na areia fofa, em qualquer terreno pouco confiável. Em suma, pelada é uma espécie de futebol que se joga apesar do chão. Nesse esporte descampado todas as linhas são imaginárias - ou flutuantes, como a linha da água no futebol de praia - e o próprio gol é coisa abstrata. O que conta mesmo é a bola e o moleque, o moleque e a bola...
Chico Buarque- O moleque e a bola - O Globo - 21/06/98
Descalço e sem camisa, o moleque corre atrás da bola que se esgueira, fugidia aos seus chamados. Com esforço a alcança e faz encontrar a sua velocidade à dela. Unidos em direção ao gol, formam um só corpo. Dominar a bola significa introjetá-la no corpo, guardá-la com o pé como se carrega na mão uma arma, sentido de posse e potência para o tiro a gol ou para o passe, para integrá-lo a um outro corpo, corpo coletivo chamado time, corpos em movimento coordenado, extensões do corpo-cabeça, corpo pensante, tomando posse do espaços vazios, como num balé, numa dança ou numa arquitetura. Hoje é dia de jogo. Mas é só uma pelada. O espaço público é o campo em dia de jogo.
O campo é o que restou. O vazio preservado. Intacto. Sagrado, ninguém se atreveu a ocupá-lo em respeito à arena dos acontecimentos verdadeiramente importantes. A pelada. A peleja. O palco. A vida que vale a pena viver. Seria esse o sentido primeiro do espaço público no Brasil?
Visto do céu, o campo de futebol é a praça medieval que tanto seduz os urbanistas, desde Camillo Sitte. Um quadrilátero vazio no traçado tortuoso da densa favela sugere lições de desenho urbano e de domínio de escala. As dimensões oficiais de um campo de futebol, curiosamente, variam de 120 a 90 metros de comprimento por 90 a 75 metros de largura. A Piazza Del Campo, em Siena, na Itália, tem as suas dimensões louvadas pelo urbanista dinamarquês Jan Gehl que defende a distância máxima de 100 metros como aquela que permite o domínio visual, que circunscreve um campo da experiência urbana e que possibilita a integração ou participação nos acontecimentos ali havidos. Se o futebol fosse instruir o desenho de uma praça, suas lições corroborariam a avaliação do arquiteto e urbanista dinamarquês. As medidas variáveis dos campos, assim como também as proporções entre largura e comprimento – entre 3:4 e 5:6 – indicam que o futebol tem muito a oferecer ao urbanismo e ao desenho das cidades. A começar pelo profundo sentido de adaptação ao espaço e à tática de jogo.
O futebol se molda ao espaço disponível. Adapta-se às dimensões existentes. Na sabedoria popular presente na pelada diminuí-se ou aumenta-se o número de jogadores em função da área disponível, em um precioso escrutínio sobre a densidade populacional. E em função das proporções do campo, mais quadrado ou mais pronunciadamente retangular, variam-se as velocidades de ligação entre o ataque e a defesa e, por conseguinte, as estratégias para criar e envolver o outro ou para a tarefa, infinitamente mais simples, de impedir a sua progressão em direção a uma meta (a perfeição é uma meta, defendida pelo goleiro...). O quadrado prenuncia um jogo ofensivo, enquanto o retângulo propicia retrancas intransponíveis.
E mesmo que não haja simetria absoluta entre os dois lados do campo, nem ortogonalidade entre as linhas delimitadoras ou, mesmo ainda, entre a verticalidade do jogador em pé, ereto, e o plano do chão (o campo de toda pelada é levemente inclinado e se o time visitante ainda não percebeu, a bola é a primeira a avisar), o senso de justiça incide na cuidadosa tarefa de dividi-lo ao meio para, no segundo tempo de jogo, inverter-se os lados dos times em combate, embaralhando novamente as cartas.
A geometria alegórica do campo está tão entranhada na prática do jogo que pouco faz, para a pelada, se estão ou não grafadas no território as linhas que o figuram. Mesmo invisíveis, elas dão peso e medida aos significados espaciais: a linha básica que divide o campo em duas partes, a do ataque e a da defesa, a do meu domínio e a do outro, tem o poder de inverter o comportamento do atrevido atacante para o mais aguerrido zagueiro, zeloso pela sua unidade de vizinhança. O círculo central ensina que todas as direções são possíveis para o ponto inicial descrever uma reta. Os semicírculos e os retângulos anunciam as zonas de perigo e a intensificação da tensão do jogo e aceleração dos movimentos. As linhas desenhadas ou imaginadas no plano horizontal do chão nos faz lembrar que o mundo é representação. E a vida, o jogo.
Os vazios das várzeas de rios contidos nas cidades estiveram disponíveis para a prática do futebol por muito tempo, no Brasil. Originaram os campos de várzea e o futebol de várzea – nem sempre em terrenos baixos ou banhados, mas sempre vagos ou baldios. A prática simultânea de futebol nestes campos espalhados pelas cidades motivou uma organização natural ou quase espontânea de competições entre times para o desenvolvimento do futebol amador, do futebol com amor e sem dinheiro, aproximando jogadores e torcedores identificados com seus respectivos campos, lugares, mitos e ritos para as horas livres dos finais de semana. Escolas de samba e clubes sociais se formaram da mesma maneira, engrossando uma cultura dos lugares, o senso de pertencimento ao bairro ou comunidade que se fazia representar por um time e suas histórias de glória e fracassos memoráveis.
Mas o campo de várzea, para além destes momentos épicos de batalhas, sempre esteve disponível para a pelada descompromissada, onde um time com camisas enfrenta o outro sem camisas. E aqui a pelada nos ensina que o jogo é sem apito ou sem a presença de um juiz. A pelada é exercício assíduo do ideal anárquico da autogestão dos conflitos.
Para o jogador de futebol, a passagem da prática amadora à profissional é uma espécie de emigração para um outro país. São muitas as histórias de craques ou ídolos do futebol brasileiro que, nas horas vagas, de maneira sorrateira ou fugidia, escapam da vigilância imposta pelo seu clube, para bater uma pelada num campo de terra batida, jogar o futebol por diversão, reencontrar o país deixado para trás e lembrar de si mesmo. O que guarda aquele campo de várzea? Aquele vazio, por acaso, quer nos dizer que uma outra cidade seria possível?
O campo é o que restou preservado. Venha a ver a cidade do centro do campo. Aproveite a distância e a perspectiva imprevista para afastar-se do cotidiano e incluir o extraordinário na vida. O espaço vazio é um convite à corrida. E a bola, como disse o poeta Paulo Mendes Campos, é o brinquedo essencial do homem. A bola corre pelo chão. O moleque bate na bola, devolve-a ao seu companheiro e a recebe mais adiante. Na sua cabeça a torcida sempre grita. Chuta. A bola voa. Ele se desprende da terra e realiza o seu sonho de voar. É hora de sair para o abraço. Mas foi frango.
O entre os dois olhares
O olhar de sobrevoo de Leonardo Finotti revela a nobreza soberana dos campos e espaços do futebol na periferia das grandes cidades brasileiras e aborda, fundamentalmente, a relação entre eles e a cidade. Mais do que um foco, como aparentemente poderia expressar este notável trabalho de fotografia, o que se impõe na leitura destas imagens, é um sentido em construção, um significado em movimento como é próprio da apreensão das dinâmicas relacionais. Relações entre o “campo-palco” e a “plateia-cidade” no teatro do mundo, relações entre os espaços públicos e privados, relações entre o direito à cidade e a forma como este se expressa, relações entre a cultura e o espaço urbano - todas a conferir um sentido de história em gestação, narrada a partir do mais emblemático e representativo espaço da invenção na cultura popular brasileira: o futebol. A presença destes vazios enseja a escrita de uma nova história.
Somos levados, com Ed Viggiani, a testemunhar e a reconhecer que a prática do futebol é conquista, invenção e subversão do espaço urbano. A cidade desprevenida e surpreendida em seus momentos de folga, oferece as frestas por onde brotam corpos congregados e sintonizados no movimento da bola. O futebol pede muito pouco para realizar a transformação inspiradora da consagração da vida nos espaços da cidade.
Entre os trabalhos de Finotti e Viggiani, temos, substancialmente, uma diferença de distâncias ou de proximidades entre registros e referentes. Do ver à distância até o compartilhar a experiência de jogar ou de torcer, no centro dos acontecimentos, percorremos uma narrativa dissonante, onde aprendemos que as brechas, os hiatos, os vazios entre as coisas preservam a promessa de poesia e do drible na previsível cidade, no destino das coisas, no determinismo da vida e na sorte do jogo.
O futebol aguarda o convite para ensinar a cidade como tratar os seus vazios. Ansioso, como o menino que espera sentado no pneu, a sua vez de entrar no jogo.
Luís Antônio Jorge

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